domingo, 24 de fevereiro de 2008

Identidade


(Márcia Oliveira)

Eram cinco da manhã. Pelas frestas da janela começavam a entrar os primeiros raios de sol. Eu não havia acordado. Queria acreditar que nem ao menos teria dormido, apenas amanheci junto com o alvorecer.


Levantei-me da cama, e cada passo que dava em direção ao banheiro só me fazia lembrar do longo caminho solitário que teria de percorrer até o trabalho. Lavei o rosto, escovei os dentes e olhei-me durante longos segundos no espelho. Ele me dizia o tempo todo quem eu era. E eu, apesar de relutar contra isso, sentia que era a mesma pessoa. A mesma menina assustada que corria no parque há trinta anos; a mesma adolescente tímida e sonhadora que lia Quintana há quinze anos, e a mesma mulher que beijava teus lábios e inebriava-se em teus braços sedentos de prazer há poucos instantes...no meu sonho.


Mas o dia não parou por aí. Enxuguei o rosto, fui até a cozinha. Peguei o leite, adocei-o com mel. Deixei que as gotas caíssem paulatinamente dentro do copo e observei-as atentamente, como a um espetáculo. Soerguendo o braço, alcancei na fruteira uma maçã. Estava tão doce! sentia como se fosse a sua própria doçura, o seu mais nobre desejo adentrando em mim, mas era apenas o sabor de uma maçã.


Voltei ao quarto, escolhi a roupa, para não dizer a máscara do dia. Era a mais bonita que eu já tive. Teria que ser assim para que a ninguém eu revelasse aquela identidade. De alguma maneira eu sabia que aquela bela roupa me ajudaria a esconder a solidão fortemente estampada em meu rosto, solidão que alguém jamais mereceu. Mas, ela estava ali. Estava ali, em frente ao espelho, diante dos meus olhos. E eu a conhecia, eu a conhecia como a um irmão meu. Estava ali o tempo todo...a sombra do meu pesar, o estar só, aquele doer n'alma que alguém jamais, jamais mereceu...oh,triste revelação que massacrou o sonho que era meu: descobri que a solidão, meu amor, a solidão era eu.

3 comentários:

Vinícius Lima disse...

Márcinha ou Clarice Lispector?

Woy disse...

Desculpe ter demorado a escrever (na verdade tava procurando onde não entendo nada de blog). Sobre o texto, me lembra alguém, só que no final ele diria: "Bem, eu posso conviver com isso, mas alguém mais poderia?"

Márcia Oliveira disse...

Queiram me desculpar, senhores; mas o texto é meu! Não assinaria se não o fosse. Plágio não é o meu forte.

rsrs...