quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Machado & Carolina

(Márcia Oliveira)

Há poucos textos atrás, falava eu de uma história de amor que venceu o tempo. O texto era o do filme O Amor nos Tempos do Cólera, baseado na obra do colombiano Gabriel García Marquez. Agora, estou eu aqui de novo para falar de uma outra história de amor, esta da vida real, que também ultrapassou muitas barreiras, não só as do tempo, mas as da vida.






Refiro-me ao maior representante da Literatura Brasileira, o mestre Machado de Assis e sua musa, Carolina, mulher com quem foi casado por mais de três décadas.






Carolina Xavier de Novais, portuguesa, pertencente a uma nobre família da côrte carioca, casou-se com Machado de Assis em 12 de novembro de 1869. Seu primeiro obstáculo foi justamente, sua família que, inicialmente, não aceitava o fato de o noivo ser mulato e epilético.






Machado, já tinha em sua família um histórico de perdas irreparáveis, perdeu a mãe muito cedo, logo em seguida perdeu a irmã e algum tempo depois, com 12 anos de idade, perdeu o pai. O menino, gago e epilético, acabou sendo criado pela madrasta, que vendia doces para um colégio do Rio de janeiro. Foi aí que Machado, um menino muito pobre e sem condições de freqüentar escolas, passou a ter contato com professores e alunos.






Sua vida sempre foi muito difícil, mas o que se sabe é que, desde cedo, ele sempre teve interesse pelos estudos e pela leitura. Na adolescência, foi trabalhar na padaria de um homem francês, que o iniciou na língua francesa. Sempre auto-didata, aprendeu depois inglês, alemão e latim, chegando a trabalhar como tradutor de livros.






Machado teve em Carolina a esposa, a enfermeira, a secretária e a redatora. Além de corrigir os erros ortográficos do escritor, ela ainda opinava em seus textos. (quanta responsabilidade!). Como era uma mulher muito culta, através dela Machado conheceu escritores do mundo inteiro e pôde, mais tarde, publicar e divulgar seus romances.






Ele sempre a escrevia cartas apaixonadas. Numa delas, disse que Carolina não era como as mulheres vulgares que ele conhecia, que seu coração e seu espírito eram prendas raríssimas. Os dois nunca tiveram filhos e dedicaram todo seu amor a uma cadela de nome Graziela. Após a morte de Graziela (outra grande perda), tiveram um outro cão a quem deram o nome de Zero.






Em 1904 morre Carolina Novais, e a vida perde o sentido para o mestre Machado que, desde sua infância mais tenra, só conheceu a dor e o sofrimento causado pela morte de seus entes mais queridos. À carolina, dedicou um belíssimo poema:





Querida, ao pé do leito derradeiro


Em que descansas dessa longa vida,


Aqui venho e virei, pobre querida,


Trazer-te o coração do companheiro.




Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro


Que, a despeito de toda a humana lida,


Fez a nossa existência apetecida


E num recanto, pôs um mundo inteiro.




Trago-te flores, - restos arrancados


Da terra que nos viu passar unidos


E ora mortos nos deixa e separados.




Que eu, se tenho nos olhos malferidos


Pensamentos de vida formulados,


São pensamentos idos e vividos.








Machado de Assis morrera quatro anos depois, em 29 de setembro de 1908, sendo sepultado ao lado de Carolina, cumprindo o que a ela havia prometido quatro anos antes. Apesar de todo seu histórico de perdas e sofrimentos e de todo seu pessimismo, pouco antes de morrer suas últimas palavras foram: "a vida é boa".






Lendo e relendo essa triste história, acredito piamente no poder do amor. Um amor verdadeiro pode sim ultrapassar todas as barreiras, não só do tempo; do sofrimento, mas também da morte. Machado e Carolina são o maior exemplo real disso.(E este ano é o ano nacional do centenário da morte de Machado, teremos outros textos sobre sua vida e obra aqui no Letras & Arte).

2 comentários:

Vinícius Lima disse...

Machado é o cara. Não conhecia poesias dele... Bravo, bravo! clap clap clap...

(blogzinho bom, esse)

Tarcísio dos Anjos disse...

Muito boa a matéria!
Gostei de saber do nome dos cachorros de Machado: "Graziela e Zero", rsrsrsrs