
quinta-feira, 23 de abril de 2009
sábado, 11 de abril de 2009
O Amor e o Tempo em Gabriel García Márquez

No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com sorriso maligno, você vai ver."
Este é o trecho inicial da obra Memória de Minhas Putas Tristes, de Gabriel García Márquez, livro que trouxe o colombiano Nobel de Literatura de volta às livrarias após um período de dez anos sem publicar. E, voltando em grande estilo, com as ontológicas memórias de um homem solitário que às vésperas de completar noventa anos resolve voltar à vida, baseando-a justamente naquilo que mais lhe faltara: o amor. Mais uma vez, Márquez centraliza suas reflexões no tempo, no tempo e na impotência (para não dizer ignorância) humana diante dele e, claro, no amor.
Nosso protagonista, um velho professor de Gramática castellana e cronista dominical do periódico El Diario de La Paz inicia suas memórias refletindo sobre a velhice, numa ânsia incontida por não saber como escrever sua crônica de aniversário que terá como tema os seus noventa anos:
"O tema da crônica daquele dia, é claro, eram os meus noventa anos. Nunca pensei na idade como se pensa numa goteira no teto que indica a quantidade de vida que vai nos restando. (...) Fazia meses que tinha previsto que minha crônica de aniversário não seria o mesmo e martelado lamento pelos anos idos, mas o contrário: uma glorificação da velhice".
Só para relembrar, em Cem Anos de Solidão (1967), o tempo também aparece como elemento importantíssimo das indagações do coronel Aureliano Buendía, um ermo e sensível pensador, que assim como todas as gerações de sua família é condenado a viver toda a vida, inexplicavelmente, fincado na mais devastadora solidão. Tal condenação, dizima gerações inteiras da família Buendía durante um século e eleva a obra ao mais alto patamar do chamado realismo fantástico.
Em O Amor nos Tempos do Cólera (1985 ), Florentino Ariza espera mais de cinquenta anos, contando os dias e as horas, pelo amor de Firmina, mulher por quem se apaixonara ainda na juventude, provando que nem mesmo o tempo pode ser uma barreira para o amor, pois "o verdadeiro amor é amor em qualquer tempo e em qualquer parte da vida".
Também nestas memórias do nonagenário professor-cronista, todos estes elementos marcantes da escritura de García Márquez recorrem e enriquecem o texto que ultrapassa a linha do poético-filosófico, numa imensidão de beleza e sensibilidade que afasta qualquer juízo moralizante ou mal pensamento do leitor diante da atitude do protagonista que deseja viver uma grande noite e um grande amor com uma menina pura. Suas intenções são as melhores, diz ele. E, de fato, o são, pois a jovem que recebe o fictício nome de Delgadina, além de idealizada como um anjo adormecido, tamanha é a sua candura, também recebe deste senhor, que passa a se preocupar com seu futuro e bem-estar material, o melhor tratamento que jamais recebera em toda a sua vida.
E este homem, que apesar dos seus noventa anos, já era um homem disposto e ativo para o trabalho, torna-se ainda mais disposto e invejavelmente feliz ao finalmente descobrir os encantos de um verdadeiro amor. Durante toda a sua vida, possuiu mulheres apenas para sua satisfação sexual, inclusive, pagava pelo prazer, mesmo para aquelas que não eram prostitutas. E agora, aos noventa anos, descobria que a vida sempre lhe preservara deste impagável bem e sentia que sua permanência na terra poderia se estender por mais cem anos e que sua velhice jamais seria um problema contanto que não lhe faltasse amor.
E a velhice é mesmo algo que só percebemos quando as primeiras manifestações externas se tornam visíveis. Dores musculares, rugas, cabelos brancos, cansaço anunciam que a aurora da vida já escorreu por entre nossos dedos faz tempo, mas nunca pensamos que a velhice é um ciclo que se vive desde o momento em que se nasce e que ela pode mesmo e deve ser glorificada, já que a vida é algo tão raro. Gabriel García Márquez nos faz perceber isso da forma mais sublime e genial. O protagonista e filósofo procura enxergar a velhice não como os anos passados que não voltam mais, mas como a vida aproveitada, como as lições aprendidas com a vivência e o passar dos anos. E é assim que a vida deve ser, penso. Um constante aprendizado de como envelhecer, de como aproveitar bem o tempo neste grande, misterioso e bagunçado planeta azul que é a Terra.
(É bom estar de volta!!!)
Márcia de Oliveira. ●๋•☆
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Machado de Assis: 100 anos depois, e o Humanitismo

Márcia de Oliveira
No último dia 29 completaram-se 100 anos da morte de Joaquim Maria Machado de Assis. Este famoso carioca, mulato, gago e epilético que, apesar das dificuldades ofertadas pela vida, conseguiu se tornar um dos maiores gênios da literatura nacional, com textos que surpreendem até hoje, principalmente, por sua atualidade.
Esta semana, Machado foi notícia. O centenário de sua morte foi lembrado pelos principais jornais impressos e pelos telejornais de todo o país. Todos deram espaço à importância do texto machadiano para a literatura e para a cultura brasileira. O Jornal da Globo (29/09/08) anunciou: "100 anos após sua morte, Machado ainda é tão atual". O Caderno 3 do Diário do Nordeste (28/09/08) disse: "Machado: clássico, logo atemporal". De fato, a atualidade dos temas e o avanço temporal de Machado são indelevelmente indiscutíveis. Os aspectos políticos, econômicos e a visão progressista tecnológica de seus textos trazem o nosso bruxo do Cosme Velho a uma atualidade já retratada e prevista por ele no passado.
Seus romances, marcados por acentuada crítica social, irreverência e ironia, transformaram o autor de Dom Casmurro num dos maiores ecritores brasileiros, mas o que pouca gente sabe é que Machado cultivou com excelência vários outros gêneros literários. Contos, novelas, poesia, teatro e, principalmente, crônicas. Foi como cronista que Machado iniciou sua carreira literária, dedicando aproximadamente 40 anos de sua vida (apenas!) à produção de crônicas em folhetins. Para quem não sabe, os folhetins eram partes dos jornais dedicadas exclusivamente ao entretenimento dos leitores, onde eram publicadas não só crônicas, mas também novelas, contos, etc.
O carioca Machado foi um dos maiores cronistas que o Brasil já teve. Porém, como suas crônicas eram extremamente voltadas à crítica política e davam violentas alfinetadas na sociedade brasileira da época, e por ser a crônica historicamente considerada pela crítica literária um gênero menor, várias séries de crônicas como A Semana e Balas de Estalo foram esquecidas pela historiografia literária. Assim, o nosso envolvente Dr. Semana (um de seus pseudônimos nas crônicas) não se tornou tão conhecido pelos leitores da atualidade quanto Bentinho (Dom Casmurro), Brás Cubas, Capitu e Conselheiro Ayres, todas personagens inesquecíveis de seus romances.
Como leitora, não preciso dizer que sinto verdadeiro fascínio pelas personagens do realismo machadiano. No entanto, há uma, em especial, que me causa profundo deleite e curiosidade. Talvez até mesmo pelo seu ligeiro esquecimento por parte dos leitores em relação a outras personagens mais vistas. Seu nome é Quincas Borba.
O filósofo Quincas Borba, cuja trajetória começa no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas e termina em um romance intitulado por seu próprio nome, é conhecido por ser o inventor da filosofia denominada Humanitismo. Quincas era um homem esquisito, solitário, tido como maluco e que herdou a herança de um tio. Seu único companheiro era um cão de estimação a quem deu-lhe o próprio nome, tamanho era o apreço que lhe tinha.
E como toda filosofia, o Humanitismo possuía um princípio: o Humanitas. Era este princípio que Quincas Borba utilizava para explicar o seu próprio nome posto em um cão:
-Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o princípio da vida e reside em toda a parte, existe também no cão, e este pode assim receber um nome de gente, seja cristão ou muçulmano...
-E se eu morrer antes, como presumo, sobreviverei no nome do meu bom cachorro.
O Humanitismo é o remate das coisas, afirma Quincas Borba. E o Humanitas é o princípio.
-Há nas coisas todas certa substância recôndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível - ou, para usar a linguagem do grande Camões:
Uma verdade que nas coisas anda,
Que mora no visíbil e no invisíbil.
-Pois essa substância ou verdade, esse princípio indestrutível é que é Humanitas. Assim lhe chamo porque resumo o universo, e o universo é o homem. (Quincas Borba, p.19).
Através deste princípio, Quincas Borba explica a inexistência da morte. Para ele, o encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas pode determinar a supressão de uma delas. Portanto, não há morte; há apenas vida, pois a supressão de uma é a condição de sobrevivência da outra. E, seguindo a mesma linha de raciocínio, o filósofo destaca ainda o caráter benéfico e conservador da guerra. Segundo ele, a guerra é a conservação das substâncias. Não há exterminado. Desaparece um fenômeno, uma expansão, mas a substância é a mesma. E o lema da guerra é: "ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas". Numa analogia mais atual: ao 3º mundo, ódio ou compaixão; aos EUA, as batatas!
Pois é, meus amigos do Letras & Arte, mas com Humanitismo ou sem Humanitismo, um fato intrigante é que Quincas Borba, apesar de título, não é o protagonista da obra. Peripécias do nosso querido bruxo! O romance conta a história de Rubião, um professor humilde, porém interesseiro, que vê em sua amizade com o filósofo Quincas a possibilidade de ascender socialmente. Quincas Borba adoece e não tem parentes vivos; somente o cachorro. Ao morrer, deixa seus bens para o amigo Rubião como recompensa por seus cuidados. Em contrapartida, exige que Rubião cuide do cachorro (Quincas Borba), pois caso se desfaça do animal, perde todo o direito de receptor da herança. E Rubião, obviamente, faz a vontade do amigo. Fica com o cachorro e muda-se de Barbacena (cidade onde morava Quincas Borba) para o Rio de janeiro, capital imperial, onde passa a levar uma vida abastada (como sempre sonhou), respirando os sofisticados ares da corte. Lá, conhece pessoas influentes, esbanja, oferece jantares aos amigos, se apaixona por Sofia (mulher de seu amigo Palha, não sendo porém correspondido), faz negócios mirabolantes e acaba perdendo tudo o que tem. Na mais completa miséria, enlouquece. Passado algum tempo, volta com o cachorro para Barbacena. Desprovido de posses, perambula pela cidade, passa fome e sede, toma chuva, adoece e morre. Ironicamente, antes de morrer, grita o lema da guerra: ao vencedor, as batatas!
O Humanitismo trata-se de uma filosofia materialista, em muitos momentos contraditória, e pouco existencial. De forma irônica e irreverente, Machado acentua forte crítica social e provoca uma reflexão no leitor. Segundo o escritor José Castello, Machado de Assis, assim como todo grande escritor, é um pensador do mundo. Não é filósofo, não é teólogo, não é cientista. Mas existe um caminho de pensar o mundo, que é a Literatura, que não tem nada a ver com esses campos, mas produz pensamento.
Na Literatura não existem verdades universais; existem interpretações, reflexões que devem ser formuladas pelo próprio leitor, a partir do que encontra de mais significativo no texto. Machado não é o tipo do escritor que deixa lições; apenas provoca reflexões.
A filosofia humanitista de Quincas Borba é apenas o retrato da real filosofia humana, cuja ganância e o desejo de ascenção social, supervalorizam as pessoas pelo que possuem e não pelo que realmente são. A maior riqueza da escritura de Machado é justamente extrair grandeza das pequenas coisas. O seu apego às coisas menores da vida cotidiana, aparentemente mais desprezíveis, sem significado, das quais ele sabia extrair um imenso valor, com sua sensibilidade e inteligência.
Machado de Assis é mais que um escritor; é um pensador da existência. E existir é existir no mundo, no erro, na miséria, na ignorância. Os temas escolhidos por Machado, segundo José Castello, não são os grandes temas, os mais elevados, os mais sublimes; mas os pequenos temas, aqueles que nos infernizam e nos fazem tomar decisões na vida.
Ser humano é ser imperfeito. E Machado sabia disso quando compôs um dos seus mais intrigantes personagens: o filósofo Quincas Borba. Ao afirmar que Humanitas é o homem porque este é a representação do universo, o filósofo põe em choque o homem e o seu verdadeiro ser.É exatamente essa visão tão real do mundo que faz da obra de Machado uma obra viva até hoje, tão viva quanto nos séculos XVIII ou XIX. Essa reflexão sobre valores humanos que nos cercam e que parecem tão simples, que nem mesmo prestamos muita atenção neles, faz do autor de Quincas Borba um pensador inigualável. Tanto Rubião quanto Quincas Borba foram vencedores. E o Humanitismo só veio provar que, segundo o princípio humano da guerra, ao final de tudo, ao vencedor, só restam mesmo as batatas.
Esse texto foi uma promessa que fiz aos leitores do Letras & Arte logo nas primeiras semanas de sua existência. Como promessa é dívida, ei-lo aqui! Espero que tenham gostado.
Gostaria então de terminar dizendo que aqui na minha cidade, no bairro Damas, existe uma rua chamada Machado de Assis. E lá, todos os moradores, assim como o escritor, têm muita história para contar...Porém, seriam necessários, pelo menos, mais uns cem anos para relatá-las! Vocês podem ficar sabendo de muitas delas em:
Grande abraço.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Psicanalisando-me

*Paulino Vergetti
Disse-me, de mim para mim,
o tanto que não me existiam
essas minhas palavras.
Algum silêncio perturbador
foge dos meus lábios
e meu olhar nem sabe decerto
quem eu sou.
Se não me disfarço, viro eu máscara
e tudo o que eu for, saberão
e até o que nem sei de mim se fui um dia.
Falam-me por mim as outras palavras
que me saem de graça
até quando me calo e nada eu digo.
Disse-me eu de mim para mim um dia
que, para eu sorrir,
antes, deverei chorar calado.
******************************************************************************************************
Publicado em: http://recantodasletras.uol.com.br/
*Paulino Vergetti é um grande amigo e maravilhoso poeta alagoano. É o Letras & Arte divulgando as maravilhas do nosso Brasil!
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Caetaneando um pouco...

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando para a expansão do universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos massos de cigarro
Domá-los cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou - o que é muito pior - por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas...
(Livros, Livro, faixa 02)
...E como o Letras & Arte também é música, e música de qualidade, achei que não deveria deixar passar em branco o apreço que tenho por um dos CD’s de Caetano Veloso mais especiais dos últimos tempos e que tem tudo a ver com o Letras & Arte. Seu título é “Livro” e foi lançado pela Polygram em 1997.
O baiano Caê, como é chamado pelos íntimos, apesar de cultivar hoje um estilo meio antagônico ao que mantinha nos tempos da Tropicália, de vez em quando, ainda volta à sua normalidade musical e nos presenteia com maravilhas da música popular brasileira.
Gosto de sua musicalidade , de sua diversidade rítmica, de suas letras poéticas e sua linguagem rebuscada. Cada música de Caetano poderia ser considerada uma aula de Português. Figuras de linguagem, diversos elementos estilísticos e tempos verbais ligeiramente inusitados, unidos à presença de elementos da cultura popular brasileira, fazem do “Livro” um verdadeiro almanaque cultural do Brasil. Este é fatalmente um de seus melhores trabalhos musicais e acabou lhe rendendo um grammy de melhor álbum de world music em 1999.
O baiano Caê, como é chamado pelos íntimos, apesar de cultivar hoje um estilo meio antagônico ao que mantinha nos tempos da Tropicália, de vez em quando, ainda volta à sua normalidade musical e nos presenteia com maravilhas da música popular brasileira.
Gosto de sua musicalidade , de sua diversidade rítmica, de suas letras poéticas e sua linguagem rebuscada. Cada música de Caetano poderia ser considerada uma aula de Português. Figuras de linguagem, diversos elementos estilísticos e tempos verbais ligeiramente inusitados, unidos à presença de elementos da cultura popular brasileira, fazem do “Livro” um verdadeiro almanaque cultural do Brasil. Este é fatalmente um de seus melhores trabalhos musicais e acabou lhe rendendo um grammy de melhor álbum de world music em 1999.
Vem, eu vou pousar a mão no teu quadril
Multiplicar-te os pés por muitos mil
Fita o céu,
Roda:
A dor
Define nossa vida toda
Mas estes passos lançam moda
E dirão ao mundo por onde ir.
às vezes, tu te voltas para mim
Na dança, sem te dares conta enfim
Que também
Amas
Mas, ah!
Somos apenas dois mulatos
Fazendo poses nos retratos
Que a luz da vida imprimiu de nós.
Se desbotássemos, outros revelar-nos-íamos no carnaval.
Roubemo-nos ao deus Tempo e nos demos de graça à beleza total, vem.
Nós,
Cartão-postal com touros em Madri,
O corcovado e o redentor daqui,
Salvador,
Roma,
Amor,
Onde quer que estejamos juntos
Multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés
E desvãos do ser.
(Os Passistas, Livro, faixa 01)
Elementos culturais como o carnaval carioca e o carnaval baiano, traduzem-se através do cotidiano mais íntimo de personagens comuns, como um casal de passistas mulatos, por exemplo. O uso de verbos no futuro do pretérito faz da mistura do popular com o erudito uma verdadeira explosão auxiliada pelo ritmo de samba enredo. A presença de aliterações (marca característica de Caetano) produz rimas de efeitos estilisticamente originais.
Dividido em 14 faixas ecléticas, "Livro" traz a sonoridade ardente do samba de raiz, a calmaria da Bossa Nova e a rebeldia do rap. Traz ainda figuras de destaque na história mundial, como uma canção para Alexandre, o grande e um excerto do poema "Navio Negreiro", de Castro Alves, recitado belamente por Maria Betânia.
Outros artistas brasileiros também são lembrados nas páginas, ou melhor, nas faixas do Livro, como Tom Zé, Arrigo Barnabé, Tom Jobim, Arnaldo Antunes, Chico Science, todos misturados a uma letra doidevanas, que relata a mistura da cultura musical de diferentes décadas e regiões brasileiras, numa brincadeira pra lá de criativa e interessante. A música chama-se Doideca e é particularmente uma de minhas preferidas.
E para não esquecer, este álbum, que traz na bagagem a paixão deste ex-Tropicália por livros, é uma verdadeira preciosidade de sua discografia e um elemento sonoro indispensável aos ouvidos de todos os brasileiros. Como se trata de um álbum antigo, o preço está bem acessível e, por incrível que pareça, fácil de encontrar.
Aproveitem essa dica!
Abraço forte.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Visão de Clarice Lispector

Carlos Drummond de Andrade
Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.
Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial, era Clarice viajando nele.
Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar sua razão de ser e retratar o homem.
O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata ou um anjo?)
Não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.
Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.
De Clarice guardamos gestos.
Gestos, tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.
Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam
em agora, edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo, Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.
Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.
Publicado em : http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema060.htm
domingo, 14 de setembro de 2008
Ecos: abrindo gavetas...
Como já mencionado no texto anterior, orgulha-me muito o fato de ser amiga de alguém tão especial como Luiz de Almeida. Um ilustre habitante da bonita Piraju, no interior paulista, artista plástico, poeta, ensaísta, autor do blog Retalhos do Modernismo e de Ecos, uma coletânea de poemas que caiu em minhas mãos, purificando o meu espírito, e que vem gerando grandes transformações no meu modo de ver e pensar o mundo.
De antemão, peço desculpas a todos os meus outros amigos também poetas, escritores, jornalistas, pessoas que fazem deste blog um verdadeiro paraíso literário, que mais nos lembra um agradável banco de praça, onde podemos nos encontrar para sentar e conversar sobre aquilo de que mais gostamos: literatura. Não quero que pensem que, pelo fato de ainda não estarem aqui, são menos dignos de minha admiração, muito pelo contrário: nossas vozes sempre ecoarão juntas aqui neste grande sarau do Letras & Arte.
Peço permissão então para iniciar, junto com vocês, a abertura das surpreendentes gavetas de Luiz de Almeida, gavetas de onde ecoam gritos, desejos, histórias e longas noites insones de intensa produção literária.
Ecos traz seu primeiro capítulo, ou melhor, sua primeira gaveta intitulada Frutos I, que se inicia com uma máxima reflexão sobre a insônia: “Para o ignorante e/ou preguiçoso, a insônia é uma doença. Para o poeta e para o sábio, uma virtude”. Sem dúvida alguma, a noite, calada e obscura, sempre nos rendeu grandes poetas. Desculpem a minha insensibilidade, mas é muito bom saber que enquanto dormimos existe alguém pensando e transcrevendo esses pensamentos para o mundo real. Pensamentos, sentimentos que, ao serem transcritos, transformam profundamente o humano no sentido intrínseco do ser. Sublimação.
O primeiro eco retirado da gaveta apresenta e justifica todos os outros. Ecos, meus ecos são gritos que despertam, sacodem, repelem, acolhem; mas, acima de tudo, nos carregam para um infinito interior e nos fazem refletir sobre nós mesmos. Quantos de nós já não calamos algum grito? Quantos de nós já não engavetamos um sonho ou uma indignação?
Os gritos ecoados das gavetas de Luiz de Almeida são gritos que denunciam o peso do silêncio dos inocentes mortos, das crianças famintas, dos doentes, das mães desamparadas, das prostitutas, dos negros, dos órfãos...
Sua temática é a temática da realidade, das ruas das grandes cidades, dos bares, das fábricas, das favelas, das praças; do operário, da dona-de-casa, do analfabeto, do pobre, de toda a gente brasileira:
“(...) Ecos, meus ecos...
Ecos da fome
E da indiferença,
Ecos da perambulação
E da prostituição,
Ecos da pobreza
E da ignorância”.
Ecos da fome
E da indiferença,
Ecos da perambulação
E da prostituição,
Ecos da pobreza
E da ignorância”.
Mas como sua poeticidade é infinitamente diversificada, outros elementos também se destacam, além dos temas sociais. O lirismo marcado pela presença da infinitude da noite, da solidão, com pequenas doses de naturalismo e uma linguagem às vezes metaforizada, às vezes limpa e clara.
“(...) Desacato e atrevimento é dizer que a noite é uma calada.
Talvez e somente em alto mar, numa jangada”...(p.29)
“Um vazio melancólico, que entra e que sai.
Uma tristemania,
Que fica e que vai.
Um grande silêncio
É provado por alguém,
Que deixa um alguém
Sem ninguém,
Só”. (p.33)
Uma tristemania,
Que fica e que vai.
Um grande silêncio
É provado por alguém,
Que deixa um alguém
Sem ninguém,
Só”. (p.33)
“(...) Uma pestana e uma acordada
e, de repente,
em sua frente,
ela pelada
e cheirando a suor
e também muito aguardente”...(p.23)
e, de repente,
em sua frente,
ela pelada
e cheirando a suor
e também muito aguardente”...(p.23)
“(...) E o enterro subiu a rua nua
E desceu na sepultura escura”... (p.31)
E desceu na sepultura escura”... (p.31)
E o fazer pensar, acompanhado do mais singelo lirismo, continua em todos os Frutos, em todas as gavetas do Ecos. Preciso confessar que ele já se tornou meu livro de poemas de cabeceira. É tão eloqüente, tão verdadeiro, tão puro, mesmo quando fala de coisas impuras, como a política no poema Politicagem (p.51):
"Um jogo que não tem regras
E muito, muito menos verdades.
São promessas infundadas,
Nunca cumpridas.
Falsidades e risos adulterados
E sem vontade
Crenças, muitas crenças...
Inócuas.
Palavras e idéias quase sempre falidas
Injúrias e calúnias sempre formuladas.
Esquece-se da vida do homem
Que acaba sempre desmoronada, perdida...
(...)o povo, sempre marginalizado,
só lembrado por ser o eleitorado.
E muito, muito menos verdades.
São promessas infundadas,
Nunca cumpridas.
Falsidades e risos adulterados
E sem vontade
Crenças, muitas crenças...
Inócuas.
Palavras e idéias quase sempre falidas
Injúrias e calúnias sempre formuladas.
Esquece-se da vida do homem
Que acaba sempre desmoronada, perdida...
(...)o povo, sempre marginalizado,
só lembrado por ser o eleitorado.
Depois, bem logo depois
O esquecimento que foi por ele votado.
(...)Passa-se um tempo e vêm novos eleitorados
que serão novamente enganados.
Os politiqueiros famintos,
Famintos pelo voto e também
A cada vez, mais e mais,
Por tudo aquilo que os deixam
Abonados".
O esquecimento que foi por ele votado.
(...)Passa-se um tempo e vêm novos eleitorados
que serão novamente enganados.
Os politiqueiros famintos,
Famintos pelo voto e também
A cada vez, mais e mais,
Por tudo aquilo que os deixam
Abonados".
Abro um parêntese para dizer que, numa época em que vivemos um período de eleições municipais, achei muito pertinente transcrever estes fragmentos do poema. Assim, podemos pensar juntos sobre tudo aquilo que estamos fazendo nas urnas eletrônicas e, sobretudo, naquilo que os políticos não fazem fora delas.
Mas, voltando às coisas boas da obra, é imprescindível dizer o quão notável é a vida do autor em cada poema, em cada palavra, em cada verso. Acho que ainda não mencionei a vocês que não tive o privilégio de conhecer Luiz de Almeida pessoalmente. Somos amigos sim, grandes amigos; só que virtuais. A distância física e geográfica não foi capaz de impedir uma relação fraterna e dileta como a nossa. Venho lendo os trabalhos de Luiz e me comunicando com ele através de missivas virtuais há mais ou menos uns dois anos. E confesso que tenho poucas amizades presenciais tão verdadeiras e agradáveis quanto esta.
Apesar de conhecê-lo pouco e há pouco, percebo nas entrelinhas do Ecos o quanto sua vida simples, interiorana, na pequena Piraju influencia sua literariedade. Seu amor pelas letras, pelas pesquisas literárias; seus momentos, sua vida familiar, cercada de amigos, de pessoas que o amam e, sobretudo de livros, dos livros que tão bem conserva em sua biblioteca são a fonte inspiradora da maior parte de seus frutos. Seus ecos, seus gritos pela justiça e o bem comum, provavelmente são oriundos de sua aproximação com a grande São Paulo, cidade que, apesar do caos social, também apaixona pela grandiosidade e por ser o berço da arte moderna brasileira, da Semana de Arte Moderna, realizada em 1922, uma das maiores paixões de Luiz de Almeida.
“Quando se ama alguém
Nunca deve-se dizer:
Te amo muito...de coração
Se realmente ama,
Deve-se dizer:
Te amo muitíssimo...
Com toda minh’alma.
Não se pode esquecer que
O coração pára e morre
E a terra o consome.
A alma...é imortal”. (p.117)
Nunca deve-se dizer:
Te amo muito...de coração
Se realmente ama,
Deve-se dizer:
Te amo muitíssimo...
Com toda minh’alma.
Não se pode esquecer que
O coração pára e morre
E a terra o consome.
A alma...é imortal”. (p.117)
Só me resta dizer o quanto me sinto honrada de ser amiga deste grande escritor e de poder ter aberto para vocês uma parte de suas gavetas. Fico feliz de ter ajudado a apresentá-las ao mundo, pois gavetas como estas não devem permanecer fechadas e tão pouco seus ecos permanecerem calados. Gavetas abertas, gritos ecoados, almas libertas!
Parabéns, Luiz!
Um grande abraço a todos.
Assinar:
Postagens (Atom)

