segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
sábado, 18 de junho de 2011
18 de junho de 2011: um ano sem Saramago
Como disse o cineasta brasileiro Fernando Meirelles, há um ano, no dia da morte de Saramago: "o mundo ficou ainda mais burro e mais cego sem ele". Sem o homem que nos fez entender o que é Literatura e qual a sua importância para a sociedade; que nos fez enxergar que a vida só se comprova pelo seu fim; sem aquele que abriu os nossos olhos para nos provar o quanto somos cegos e inertes enquanto não fazemos absolutamente nada para impedir que este mundo se transforme num mundo ainda mais injusto e sem esperança; sem o homem que amou terna e verdadeiramente a sua Pilar e a ela proporcionou, até o último instante, um mundo de amor e sabedoria, que ultrapassou as barreiras do tempo e das diferenças; sem o poeta que escreveu suas memórias pequenas da infância, a fim de voltar a uma época que, apesar de toda dor e sofrimento, lhe transformara em um ser humano melhor, de alma simples, coração terno e mente sempre aberta; sem o idealista que jamais se absteve de suas convicções políticas e nem se deixou abater pelas críticas e perseguições sofridas; sem o homem que não acreditava em Deus e nem em outra vida, além desta e que, segundo Meirelles, tomara que esteja se contradizendo, vivendo agora num plano espiritual bem melhor e bem diferente deste, e que ao céu tenha subido, sendo, certamente, a estrela mais brilhante, mesmo à terra sempre pertencendo.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
A Maior Flor do Mundo - José Saramago
Vídeo baseado em um conto infantil de José Saramago. Maravilhoso!
A MAIOR FLOR DO MUNDO from ATTAC.TV on Vimeo.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
domingo, 22 de agosto de 2010
URARIANO MOTA: A Cautelosa Recriação dos Duros Tempos e o Sorriso Esperançoso de Soledad
Ao ler Soledad no Recife, romance de Urariano Mota, nos deparamos com uma difícil situação, ao descobrir que palavras são pobres e insuficientes para traduzir a grandeza do texto, a perfeita recriação de uma triste e cruel história e, principalmente, o brilho do sorriso cheio de esperança de Soledad Barrett Viedma (a Sol), uma jovem militante paraguaia, assassinada junto com seus companheiros durante os duros tempos do regime militar pós-64, depois de ser covardemente entregue por seu companheiro Daniel (cabo Anselmo), namorado e pai do filho que esperava.
O romance, histórico, mas com ares de biografia, que traz como pano de fundo a ditadura militar brasileira, mais precisamente, os duros tempos do governo Médici, quando militares, descrentes do sistema democrático, defendiam que um regime de força, cerceador das liberdades políticas e constitucionais fosse a “melhor” coisa para o Brasil, atrela-se aos mais completos e surpreendentes recursos estilísticos que resultam numa mistura perfeita de ficção e realidade.
Através do que chamo de uma grande sacada, a de acrescentar um narrador-personagem fictício, de estilo mavioso e apaixonado, que nutre um amor platônico por Soledad, Urariano recria, minuciosamente, um contexto histórico real, acompanhado de uma ficção demasiado impressionante em que, em muitos momentos, me senti pertencente ao texto, como se vivesse àquela época. Impressionei-me com as fortes imagens do sofrimento de jovens idealistas que tiveram suas vidas interrompidas, precocemente, em nome do sonho de se construir um mundo melhor, chegando até mesmo a sentir suas angústias e a visualizar seus sonhos e medos.
O sentimento platônico despertado pela bela e revolucionária protagonista em nosso narrador é um detalhe que adoça e dá uma certa sutileza à história, porque consegue suavisá-la; torná-la menos dura e ainda mais especial. Como é possível alguém falar de amor, de forma tão terna e poética, em meio aos anos de chumbo? O escritor, jornalista e agora, com certeza, POETA Urariano consegue. Como conceitua muito bem Flávio Aguiar, no texto de apresentação do livro: Soledad no Recife é “um romance de amor que se passa em tempos contrários ao amor”. Em um tempo em que prevaleciam o medo, o silêncio e a falta de liberdade. Um tempo em que a condição humana não era respeitada. Um tempo em que o amor era visto como bobagem; alienação. E, mesmo assim, um tempo em que até o mais violento gesto, a mais cruel e sanguinária repressão não foi capaz de impedir que jovens, socialistas, erguessem suas bandeiras e lutassem, arriscando suas vidas, em nome da esperança de dias melhores e, não obstante, no calor da luta armada, sucumbissem aos desejos de amor. Parafraseando, oportunamente, as palavras de Urariano, devemos reconhecer que àqueles jovens, àquela época eram verdadeiras “sensibilidades agudas e inteligências sufocadas”.
“Gostaria de ter junto a mim sempre a visão que dela tive nesse encontro. Um regalo para os olhos. Quem a viu somente ali, sempre a recordará como uma pessoa carinhosa, guapa e linda em mais de um sentido. Para os olhos, para a inteligência, para o espírito, para o coração”. (Soledad no Recife. Pág. 106)
Onde termina a ficção e começa a realidade? Me fiz esta pergunta várias vezes ao ler a história contada por um narrador imaginário que trata-se, na verdade, de um dos companheiros de Soledad, sobrevivente que escapou, por sorte, da chacina (aquela que ficou conhecida como a chacina da chácara São Bento) e, 37 anos depois, pelas mãos de Urariano, recria os fatos, a partir de suas lembranças. Dialogando com o leitor e promovendo reflexões, nosso contador de histórias cria essa impressão, fazendo com que, muitas vezes, sua voz se confunda com a do próprio autor.
Sem dúvida, é um romance para ler, deleitar-se e, depois disso, refletir. Refletir sobre a frieza de Anselmo em delatar os companheiros, entregá-los à morte e falar sobre isso, anos mais tarde, sem a menor demonstração de culpa ou arrependimento; refletir sobre nossa história; sobre sentimentos que estiveram (e ainda estão) fortemente presentes; sobre as perdas humanas (muitas, até hoje, anônimas e sem justiça) e, principalmente, sobre o momento atual que é o reflexo de tudo isso; é a conseqüência (não sei se já posso dizer o desfecho) de nossa história. Mas, acima de tudo, devemos refletir sobre a idéia de que trabalhos como este, de Urariano, não são produzidos todos os dias, infelizmente. Não recebem seu devido valor pelas mídias nacionais, mas são poderosos instrumentos de conhecimento e sabedoria, além, é claro, de fonte de orgulho e prazer para nós, leitores, que sabemos da importância de se ter uma boa história nas mãos de um bom autor.
Passei semanas escrevendo este texto e deixei para ler outros artigos sobre Soledad no Recife após a conclusão do meu. Queria discorrer sobre tudo o que senti sem ser influenciada pelas demais opiniões. Mas percebi e fiquei feliz em ver que as opiniões são as mesmas, mudando apenas os ângulos de visão. Todos os que leram o livro e escreveram a respeito, enxergam Sol como a mártir de Urariano, como aquela que representa todas as vidas perdidas durante o período militar e, muitas, até hoje, esquecidas. Todos tiveram impressões parecidas e sentimentos aflorados (ódio, revolta, compaixão, ternura) com a grandeza realista e a coexistente sensibilidade do texto. Tenho certeza de que todos sentiram a mesma angústia e aperto no peito ao lerem o último capítulo, quando o narrador descreve a crueldade da execução dos jovens companheiros e de Soledad e denuncia a falsidade ideológica da imprensa (instituição controlada pelo poder vigente) nas manchetes dos jornais da época sobre o terrível genocídio – ao relatar que a polícia havia salvo o país de perigosos terroristas quando, na verdade, não passavam de jovens socialistas querendo se libertar das barbaridades militares. Sem dúvida, Soledad no Recife entrou para o grupo das melhores obras que já li e das quais mais indiquei a pessoas queridas e interessadas em boa Literatura. O texto é perfeito e isto é da mais real e absoluta sinceridade. Fez surtir um forte efeito em meu coração, o que me impulsionou ainda mais a escrever.
No mais, resta agradecer a Urariano pela produção de um cauteloso, sensível e maravilhoso trabalho, que nos promove a oportunidade de conhecer, documentar um importante período de nossa história e refleti-lo. Assim, divulgá-lo, incansavelmente, é o mínimo que podemos fazer para contribuir com o resgate da memória nacional e, claro, com o respeito aos que lutaram, avidamente, pela democracia. Acreditem: ainda que este não seja o país mais justo para se viver, ainda que não tenhamos mais o espírito guerreiro de lutar por mudanças, ainda assim, seremos pessoas bem melhores se formos capazes de olhar para a capa do romance de Urariano e irmos muito além da indignação pela realidade dos fatos, ao sentir a esperança de paz que nos é transmitida pelo brilho do sorriso largo de Soledad.
Salve, Urariano!!!
P.S: Soledad no Recife pode ser encontrado na Livraria Cultura de sua cidade!
Abraços a tod@s!
quinta-feira, 23 de abril de 2009
sábado, 11 de abril de 2009
O Amor e o Tempo em Gabriel García Márquez
No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com sorriso maligno, você vai ver."
Este é o trecho inicial da obra Memória de Minhas Putas Tristes, de Gabriel García Márquez, livro que trouxe o colombiano Nobel de Literatura de volta às livrarias após um período de dez anos sem publicar. E, voltando em grande estilo, com as ontológicas memórias de um homem solitário que às vésperas de completar noventa anos resolve voltar à vida, baseando-a justamente naquilo que mais lhe faltara: o amor. Mais uma vez, Márquez centraliza suas reflexões no tempo, no tempo e na impotência (para não dizer ignorância) humana diante dele e, claro, no amor.
Nosso protagonista, um velho professor de Gramática castellana e cronista dominical do periódico El Diario de La Paz inicia suas memórias refletindo sobre a velhice, numa ânsia incontida por não saber como escrever sua crônica de aniversário que terá como tema os seus noventa anos:
"O tema da crônica daquele dia, é claro, eram os meus noventa anos. Nunca pensei na idade como se pensa numa goteira no teto que indica a quantidade de vida que vai nos restando. (...) Fazia meses que tinha previsto que minha crônica de aniversário não seria o mesmo e martelado lamento pelos anos idos, mas o contrário: uma glorificação da velhice".
Só para relembrar, em Cem Anos de Solidão (1967), o tempo também aparece como elemento importantíssimo das indagações do coronel Aureliano Buendía, um ermo e sensível pensador, que assim como todas as gerações de sua família é condenado a viver toda a vida, inexplicavelmente, fincado na mais devastadora solidão. Tal condenação, dizima gerações inteiras da família Buendía durante um século e eleva a obra ao mais alto patamar do chamado realismo fantástico.
Em O Amor nos Tempos do Cólera (1985 ), Florentino Ariza espera mais de cinquenta anos, contando os dias e as horas, pelo amor de Firmina, mulher por quem se apaixonara ainda na juventude, provando que nem mesmo o tempo pode ser uma barreira para o amor, pois "o verdadeiro amor é amor em qualquer tempo e em qualquer parte da vida".
Também nestas memórias do nonagenário professor-cronista, todos estes elementos marcantes da escritura de García Márquez recorrem e enriquecem o texto que ultrapassa a linha do poético-filosófico, numa imensidão de beleza e sensibilidade que afasta qualquer juízo moralizante ou mal pensamento do leitor diante da atitude do protagonista que deseja viver uma grande noite e um grande amor com uma menina pura. Suas intenções são as melhores, diz ele. E, de fato, o são, pois a jovem que recebe o fictício nome de Delgadina, além de idealizada como um anjo adormecido, tamanha é a sua candura, também recebe deste senhor, que passa a se preocupar com seu futuro e bem-estar material, o melhor tratamento que jamais recebera em toda a sua vida.
E este homem, que apesar dos seus noventa anos, ainda era um homem disposto e ativo para o trabalho, torna-se ainda mais disposto e invejavelmente feliz ao finalmente descobrir os encantos de um verdadeiro amor. Durante toda a sua vida, possuiu mulheres apenas para sua satisfação sexual, inclusive, pagava pelo prazer, mesmo para aquelas que não eram prostitutas. E agora, aos noventa anos, descobria que a vida sempre lhe preservara deste impagável bem e sentia que sua permanência na terra poderia se estender por mais cem anos e que sua velhice jamais seria um problema, contanto que não lhe faltasse amor.
E a velhice é mesmo algo que só percebemos quando as primeiras manifestações externas se tornam visíveis. Dores musculares, rugas, cabelos brancos, cansaço anunciam que a aurora da vida já escorreu por entre nossos dedos faz tempo, mas nunca pensamos que a velhice é um ciclo que se vive desde o momento em que se nasce e que ela pode mesmo e deve ser glorificada, já que a vida é algo tão raro. Gabriel García Márquez nos faz perceber isso da forma mais sublime e genial. O protagonista e filósofo procura enxergar a velhice não como os anos passados que não voltam mais, mas como a vida aproveitada, como as lições aprendidas com a vivência e o passar dos anos. E é assim que a vida deve ser, penso. Um constante aprendizado de como envelhecer, de como aproveitar bem o tempo neste grande, misterioso e bagunçado planeta azul que é a Terra.
(É bom estar de volta!!!)
Márcia de Oliveira. ●๋•☆
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