domingo, 9 de março de 2008

Romance: História e Sistema de um Gênero Literário

Márcia Oliveira


O romance, forma literária pertencente ao gênero narrativo, vem sofrendo, durante os últimos três séculos, uma forte evolução no âmbito histórico e estrutural, contemplando a Literatura com diversas obras clássicas ao longo do tempo.




Por se tratar de uma espécie literária relativamente moderna, o romance não possui raízes greco-latinas; no entanto, pode-se considerá-lo uma das mais ricas criações artísticas das modernas literaturas européias.




De acordo com Vítor Manuel de Aguiar, já na Idade Média, o vocábulo "romance" designou primeiramente a língua românica, considerada vulgar por se tratar de uma língua originária do Latim vulgar e não do Latim clássico e já havendo sofrido profundas modificações em relação a este idioma. Só mais tarde é que a palavra "romance" passou a designar um estilo literário dotado de profundo sentimentalismo, inicialmente, narrado em verso e, posteriormente, em prosa.




Dependendo da importância dada ao personagem ou à ação, ou ao espaço, podemos ter: romance de costumes, romance psicológico, romance policial, romance regionalista, romance de cavalaria, romance histórico, etc. O romance de cavalaria opunha-se ao romance sentimental. Enquanto o primeiro compunha-se de bravos heróis dispostos a travar as maiores batalhas em nome de sentimentos nobres como o amor, o segundo tratava-se de um texto analítico do sentimento amoroso, podendo ter um cunho marcadamente erótico ou acentuadamente sentimental. Porém, ambos não passavam de textos essencialmente voltados para o público feminino, que tinha na Literatura sua principal fonte de entretenimento.




No período renascentista (século XVI) entra em voga o romance pastoril, forma narrativa marcadamente culta, na qual a prosa mescla-se com o verso, tendo como principal obra-prima do gênero a Diana, de Jorge de Montemor. Tal romance teve uma extensa irradiação na Literatura européia dos séculos XVI e XVII.




Mas é no século XVII que o romance passa a ter uma proliferação extraordinária. O romance barroco, semelhante ao romance medieval caracteriza-se pela imaginação exuberante, pelo excesso de aventuras excepcionais e inverossímeis, como náufragos, duelos, raptos, aparições de monstros, etc. E assim, através de longas e complicadas aventuras sentimentais, o romance passa a agradar, pelo menos em parte, o exigente público deste século.




No mesmo conceito de Literaturas européias desta época, ocupa um lugar privilegiado na criação romanesca a Literatura espanhola, tendo no Dom Quixote, de Miguel de Cervantes Saavedra sua principal representação. O texto revela uma crítica em formato de sátira aos romances de cavalaria, pois na visão de uma parte da sociedade européia o romance não constituía um texto literário ideal, dotado de verossimilhança. Segundo Huet, crítico literário francês do século XVII, o romance não passava de um estilo literário alienante, que distanciava o público da realidade, através de emoções fortes e devaneios excessivos, os quais não poderiam conviver com a vida factual.




Entretanto, quando no século XVIII o sistema de valores da estética clássica começa a perder sua homogeneidade e sua rigidez, e com o surgimento de um novo público detentor de poder aquisitivo e cultural - a burguesia - o romance conhece uma metamorfose e um desenvolvimento muito profundos, a ponto do francês Diderot não aceitar a identificação do romance anterior ao século XVIII e do novo romance deste mesmo século. Obras como Manon Lescault, de Prévost e o Werther de Goethe demonstram que o romance tornara-se incrivelmente penetrante, uma espécie de análise despudorada das paixões e dos sentimentos humanos.




O público cansara-se do caráter fabuloso e exigia das obras narrativas mais verossimilhança, mais realidade. Assim, com o surgimento do Romantismo, o romance, que já havia conquistado seu respeito e autonomia, sofre uma dilatação, um considerável aumento do seu público leitor. Essa dilatação atua como negativa na qualidade da produção romanesca, sugindo assim, novos tipos de romances, entre eles Romance negro ou de terror, que obteve uma forte aceitação no final do século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX, constituindo uma das formas romanescas mais apreciadas pelo então dilatado público; e o romance em folhetins, caracterizado pelas numerosas aventuras descabeladas, pelo tom melodramático e pela freqüência de cenas emocionantes, mantendo vivo o interesse do público de folhetim para folhetim.




Por conseguinte, ainda com o Romantismo, a narrativa romanesca afirma-se decisivamente como uma importante forma literária, pronta para expressar não só aspectos pertencentes ao homem, mas também aspectos pertencentes ao mundo, seja em forma de romance histórico, psicológico, poético ou simbólico, não importa. O fato é que o romance assimilou com perfeição diversos gêneros literários e provou ser capaz de representar tanto aspectos da vida cotidiana quanto aspectos de uma atmosfera poética, e até mesmo a análise de uma ideologia, tornando-se uma das formas literárias mais importantes de sua época e transformando o século XIX no período mais brilhante de sua história.






Fonte: SILVA, Vítor Manuel de Aguiar e. Teoria da Literatura. Coimbra: Almedina, 1991.

3 comentários:

Alex disse...

Agradeço pelo post sobre romance. Ele me ajudou bastante.
Há cerca de dois anos escrevi algumas páginas de algo que eu achei bom, mas que creio precisar de alguma estrutura...
A priori pensei em um conto, mas pelo que pude pesquisar ele não se encaixa.
O Romance Sentimental mencionado por você me pareceu bem adequado.

att,

Alex

Paixão de adolescente!!! disse...

valew pra quem postou isso
me ajudaou pra caramba...

OBRIDUH...

Henrique Wagner disse...

Marcia, vc conseguiu fazer um resumo minúsculo de algo assustadoramente grande... Não sei se gosto do resultado disso. Mas o que mais me incomodou foi o uso reiterado do verbo "sofrer", usado de forma indevida... Algo do tipo: "A literatura vem sofrendo uma grande evolução"... Ora, por que "sofrendo"??? Esse é um erro mais ou menos comum entre jornalistas, que não são, digamos, as criaturas mais inteligentes do mundo... Sugiro que vc dê olhada nisso. Qualquer gramático de beira de estrada reprova o uso, cada vez mais disseminado, desse termo.
Abç.