sexta-feira, 20 de junho de 2008

A Padaria Espiritual no Ceará e Sua Contribuição à Literatura Cearense

(Márcia de Oliveira)


Como filha legítima da Terra da Luz, achei que o Letras & Arte não poderia deixar de mostrar a vocês, leitores, um pouco de nossa cultura literária. Por isso, aqui vai um dos momentos mais originais e mais importantes da Literatura Cearense: os seis anos de existência da Padaria Espiritual, um dos grupos literários de maior repercussão de nossa história. Deliciem-se à vontade!


Fundada em 30 de maio de 1892, a Padaria Espiritual consistiu em uma agremiação cultural das mais importantes de nossa história obtendo, inclusive, forte repercussão nacional. Caracterizada por sempre florescer em torno de grupos literários, a Literatura Cearense recebe uma significativa contribuição no que diz respeito à arte e à intelectualidade do século XIX.


O grêmio de intelectuais formado por escritores, pintores, desenhistas e músicos foi representado por sua heterogeneidade, não só nas diversas artes, mas também nas diversas ideias e correntes estéticas em que mergulhou. Dela participaram nomes, como: Antônio Sales (fundador e idealizador do programa de instalação), Adolfo Caminha, Lívio Barreto, Lopes Filho, Raimundo Teófilo de Moura e muitos outros. Todos os sócios, ou melhor, todos os "padeiros" assinavam seus textos com pseudônimos, assim Antônio Sales era Moacir Jurema, Adolfo Caminha era Félix Guanabarino, Lívio Barreto era Lucas Bizarro e, ao longo de toda a sua jornada, foram 34 autores,cada um com um pseudo-nome específico.


Além de contar com um divertido e criativo programa de instalação, formado por 48 artigos que expressavam seu pensamento e objetivos, a Padaria contou com a ativa participação de Antônio Sales que, com sua veia publicitária enviou o programa de instalação para os mais renomados escritores do eixo Rio-São Paulo da época, sempre pedindo a eles adesão na colaboração do periódico O Pão, uma espécie de jornal que era "impresso", ou melhor, "amassado" semanalmente pela Padaria. Essa atitude de Sales deu certa notoriedade ao movimento em todo o país, fazendo do Ceará uma referência literária nacional.


Irônicos e irreverentes, os participantes possuíam em seus títulos a nomenclatura hierárquica das padarias reais: o padeiro-mor (presidente), os forneiros (secretários), o gaveta (tesoureiro), os padeiros (sócios) e o forno (sede oficial da Padaria). Também traziam no peito o lema: "alimentar com pão e espírito todos os sócios e a população em geral".


Toda a ironia e irreverência da Padaria se justificava por seu objetivo primordial: criticar a sociedade burguesa e as instituições que mantinham seu poderio ideológico, uma vez que os padeiros eram, em sua maioria, oriundos das camadas média e baixa da população e se mostravam descontentes com a classe burguesa, dentre outras coisas, por seu exacerbado apreço pela cultura europeia.


Em um dos itens de seu programa de instalação declaram seu desprezo pelos estrangeirismos presentes nas nossas obras literárias, permitindo apenas os neologismos do Dr. Castro Lopes, médico e gramático que inventava palavras exóticas como "runimol" para substituir os francesismos da língua como "avalanche", por exemplo. Esse forte caráter nacionalista também se reflete na proibição do uso de termos referentes à fauna e à flora estrangeiras em nossa Literatura. Tal característica repercutiu no fato de muitos historiadores e críticos literários enxergarem na Padaria Espiritual uma espécie de prenúncio do Modernismo, que trouxe esta como uma de suas principais preocupações, quase trinta anos mais tarde, na Semana de Arte Moderna, em 1922. No entanto, sabemos que o Modernismo só se consolidou efetivamente em terras cearenses na década de 40 com o grupo Clã.


Saudosistas, os padeiros procuravam resgatar a Fortaleza de aspectos naturais e simplórios de outrora. Estavam cansados das repetições excessivas e dos clichês literários, como a Rosa de Malherbe, por exemplo. Além de proibir o uso de qualquer referência a este poema, também proibiam os outros padeiros de escreverem nas folhas perfumadas dos álbuns femininos, uma característica considerada essencialmente burguesa nas mulheres da época. Também fizeram violentas críticas à construção de um enorme cassino no Passeio Público, que fora comparado a um meteoro caído na Bahia e alcunhado de "monstrengo" pelos padeiros.


Agraciada por seu humor e identidade próprios, a Padaria existiu durante 6 anos, passando por duas fases: a primeira, de 1892 a 1894, considerada a fase da pilhéria, do humor escrachado; a segunda, de 1894 a 1896 (quando de seu término em dezembro), apesar de mais séria e compenetrada, não fugiu completamente ao seu humor característico.


Sérios ou bem-humorados, os padeiros não perderam, em nenhum momento, a sua ousadia e nem por isso deixaram de fazer poesia. Apesar de inferiorizados, quando comparados aos intelectuais da Academia Francesa, não foram menos talentosos ou menos expressivos. Os padeiros de Antônio Sales, que iniciaram sua agremiação com pequenas reuniões no instinto Café Java da Avenida Ferreira (hoje Praça do Ferreira), juntos, durante seis anos, representaram o que houve de mais criativo, inovador e significativo para a cultura cearense.

2 comentários:

cristiane disse...

"O povo cearense precisa alertar-se para as várias formas de cultura do Ceará, uma terra tão rica de manifestações culturtais e a maior parte de sua população não conhecece ou preferem se apegar as culturas do eixo Rio-São Paulo ".

Cristiane Alves
CRISALVES1404@GMAIL.COM

Mena Botelho disse...

Padarias espirituais
Colunista: Emerson Monteiro
Coluna: Pauta Aberta
19/05/2010
TV Padre Cícero


Elmano Pinheiro Rodrigues, cearense de Farias Brito, supervisor editorial da Universidade Nacional de Brasília, desenvolve projeto cultural de semear a boa leitura pelo Brasil. Quando de férias no Cariri, em janeiro deste ano, ele aproveitou a ocasião para dar início a mais 40 pontos de bibliotecas nas cidades do Sul do Ceará.
A proposta de Elmano é incentivar a preservação da memória das personalidades locais nas comunidades onde elas viveram e prestaram serviço, as quais, com o passar do tempo, ficariam esquecidas na memória social, adotando seus nomes para as novas bibliotecas fundadas por ele. Um dos exemplos que apresenta: Abelardo Arrais, líder no distrito de Quincuncá, em Farias Brito, o qual, para resgatar memória e obra do líder, realizou na localidade a instalação do que considerar uma padaria espiritual, referência ao movimento literário cearense do final do século XIX, em Fortaleza, capitaneado por vários intelectuais, dentre os quais o escritor Antônio Sales. Tinham preocupação idêntica, de fomentar o gosto pela leitura no seio da grande população, através de constantes atividades de divulgação das obras literárias.
No seu ofício profissional, Elmano Rodrigues se movimenta com desenvoltura junto às editoras e autoridades, tanto na Capital Federal quanto no Sudeste do Brasil, reunindo por doação livros e conseguindo o transporte destes aos lugares mais distantes que sejam do território brasileiro.
Os livros são adquiridos junto a ministérios, editoras, universidades e secretarias, sobretudo no Distrito Federal.
Para iniciar uma padaria espiritual, ele oferece a primeira cota de 500 livros, aos quais depois virá reunir novas publicações, a depender do interesse de quem se dispuser a levar em frente o trabalho inicial.
Afinal, o livro define bem o que representa um bom amigo. Sempre do nosso lado, observa silencioso nossos passos e traz o apoio nas horas de solidão e dificuldade, além de nos alegrar nas horas de lazer. Houve alguém (Monteiro Lobato), com propriedade, que afirmou: Uma casa sem livros é uma casa sem alma.
O livro segue sendo a maior invenção de toda a humanidade, pois se acha na origem das demais iniciativas humanas, somando experiências e transmitindo as novas práticas, de geração a geração.
Quem ainda não despertou para a riqueza da leitura dos livros deve tomar a feliz iniciativa e adotar esse hábito o quanto antes; só então irá reconhecer o que tantos vêm dizendo há séculos.