sexta-feira, 6 de junho de 2008

A (Des)construção da Identidade e o Deslocamento Antropológico em Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago


(Márcia Oliveira)


Em um lugar não identificado, um homem em seu carro, parado no sinal, não consegue dar a partida quando a luz verde se acende e, lá de dentro, clama por socorro, pois acabara de ficar cego subitamente. Enquanto muitos motoristas buzinam reclamando do trânsito que, devido ao ocorrido, ficara tumultuado, algumas pessoas vão até o carro ajudar o pobre homem que grita estar cego. Uma mulher, não identificada, tenta acalmá-lo dizendo que pode ser apenas um problema de nervos e sugere chamar uma ambulância. O cego pede que apenas o levem para casa, para junto de sua mulher. Um homem se aproxima e, gentilmente, se oferece para levá-lo. Ele aceita e os dois seguem para o seu apartamento. Lá, o tal homem se oferece para fazer-lhe companhia enquanto sua esposa não chega do trabalho. O cego diz que não precisa, que ficará bem; agradece ao homem e este vai embora. Mais tarde, quando do retorno da esposa, os dois descem para ir a uma clínica à procura de um profissional que o examine e descobrem que o carro havia sido roubado pelo gentil sujeito que o trouxera para casa. Desesperados com a cegueira, os dois seguem de táxi até à clínica. A mulher, com muito cuidado, segue o trajeto inteiro segurando a mão do marido. Na clínica, o paciente descreve sua cegueira como sendo uma brancura luminosa, como um mar de leite; uma luz que se acende. O médico se espanta com a falta de explicação para a cegueira abrupta, solicita alguns exames e pede que o paciente retorne a casa, prometendo estudar com cuidado seu caso. À noite, ao dormir o homem da cegueira branca sonha que está cego...


Parece que Saramago não quer sair mesmo das páginas do Letras & Arte. Este maravilhoso mago das Letras portuguesas se infiltrou em minha vida e tem me mostrado coisas que nunca sonhei ver. Em seu magnífico Ensaio Sobre a Cegueira, obra a qual se refere ao resumo do primeiro capítulo o texto aí em cima, o "mestre Sara" abre nossos olhos para o mundo real que nos cerca e que nos negamos (até de forma inconsciente) a enxergar. Além de uma evidente continuidade da identidade de sua escritura no que diz respeito aos aspectos formais, estilísticos e conteudísticos, logo neste 1º capítulo, o que mais atrai a atenção do leitor é a súbita cegueira de um homem desconhecido que, ao esperar a abertura do sinal verde dentro de seu carro, encontra-se impedido de dar a partida por estar completamente cego. Sua cegueira é completamente incomum, pois se trata de um fato repentino e sem explicação científica ou aparente. Sem falar que o pobre homem não passa a viver as trevas da escuridão; mas as trevas da brancura, uma vez que sua cegueira possui um branco luminoso e assemelha-se a um mergulho num mar de leite, o que a difere muito da cegueira convencional. Em seguida, durante toda a obra, todos vão cegando, inexplicavelmente, um a um; exceto a mulher do médico, o homem que atendeu em seu consultório o primeiro cego.


Do ponto de vista estilístico, a questão da identidade, muito recorrente em todos os romances de José Saramago, também é frisada aqui, de uma forma um tanto quanto diferente de Memorial do Convento, texto postado anteriormente, principalmente no que diz respeito ao nome (símbolo da identidade individualizada). Em Memorial do Convento, o signo do nome está muito associado à idéia de perpetuação da vida. Quando Blimunda diz a Baltasar que “pronunciar o nome de alguém é uma forma de mantê-lo vivo”, além da vida física, ela se refere também ao poder da palavra, que torna eterna tanto a verdade quanto a mentira.


No entanto, neste Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago prima por manter uma identidade aberta; coletiva (a critério do leitor). O fato de não nomear as personagens nos faz refletir que elas podem ser, na verdade, qualquer um.
O leitor é levado para um inusitado e criativo universo ficcional, onde experimenta, a cada página, a dolorosa trajetória dos cegos no romance, que já se inicia em um lugar não identificado, em um tempo não mencionado, que só é passível de reconhecimento de sua modernidade devido à presença de alguns elementos que a denotam, como: os carros, os semáforos, a faixa de pedestre, todos sinais que configuram um cenário urbanizado e moderno de uma cidade ocidental qualquer.


A Literatura, para Marc Augé, é uma das maiores formas de expressão cultural de um povo, e busca referências em uma espécie de “lugar antropológico”, que confere ao homem uma identidade, define a sua relação com o meio e o situa em um contexto histórico. Com a quebra dessa referência espaço-tempo-identidade, Saramago torna seu Ensaio Sobre a Cegueira um espelho, onde o leitor pode mirar-se e refletir sobre seu papel, enquanto cidadão do mundo, na construção da sociedade e das relações humanas. Não nomear os cegos (que vão cegando um a um) é uma maneira de universalizar a experiência abrangendo todas as pessoas. O primeiro grupo de cegos é levado pelas autoridades sanitárias a uma espécie de isolamento dentro de um manicômio desativado. Lá, são informados de que estão sozinhos. Não há um governo, não há um estado que se responsbilize por seus direitos e deveres. Tudo deve partir dos próprios cegos. E eles passam a se organizar dentro de um novo modelo social. Sentem a necessidade de se organizar hierarquicamente e elegem o médico para se responsabilizar pela manutenção da ordem, do equilíbrio e começam a viver com o mínimo, somente com o essencial à sobrevivência, o que nos parece uma maneira de nos fazer refletir sobre os problemas advindos de nossa falha organização social capitalista, assim como também uma maneira de nos mostrar a tentativa de um novo modelo organizacional, desta vez, semelhante ao modelo socialista marxista.

A descrição de Saramago sobre a cegueira também é um elemento intrigante e indispensável à compreensão da obra, principalmente, no momento em que, no consultório médico, o primeiro homem a cegar define a sua cegueira da seguinte forma: “é como uma luz que se acende”. (1995: p.22). Tal definição antecipa metaforicamente a todos nós, leitores e “cegos”, que o que pensávamos ser a visão, pode ser, na verdade, a própria cegueira.


O médico, representante da visão científica (e como é interessante falar de visão num ensaio sobre a cegueira!), intrigado com a inexplicável cegueira, reflete sobre a possibilidade de se tratar de um caso específico de agnosia que, segundo o Dicionário Aurélio, vem do grego agnosía e significa falta de conhecimento; perturbações dos órgãos sensoriais que impedem o doente de reconhecer a natureza e a significação das coisas em geral, a nível auditivo, visual ou táctil. Seria então a cegueira a ausência de conhecimento? Fechar os olhos para a realidade grotesca do mundo em que vivemos e pensar que este é o melhor dos mundos não é uma espécie de comodismo que nos leva à alienação? O ensaio pode ter sido escrito por Saramago, mas a reflexão fica a nosso critério. Este me parece o intuito primordial da escritura do autor de Todos os Nomes. E, por falar em nomes, não esqueçam da máxima que diz: "dentro de nós há uma coisa que não tem nome. Essa coisa é o que nós somos". Dentro do manicômio as pessoas não se apresentam pelos nomes, aliás, há um momento em que a mulher do médico diz: "é como se temessem dar-se a conhecer um ao outro". Os cegos são identificados por suas profissões ou pela maneira como cegaram, mas nunca por seus nomes. De fato, lá dentro os nomes não têm nenhuma importância. O que vemos ali é um novo modelo de organização social, onde todos têm que aprender a conviver com as diferenças e perceber que, na verdade, são todos iguais. Não há um governo, um estado; apenas um grupo de cegos vivendo talvez a parte mais dolorosa de sua trajetória: a descoberta do eu e do outro.


Além de sua já consagrada arqueologia verbal e da ausência de uma pontuação lógica, Saramago utiliza descrições substancialmente metafóricas (como a descrição da cegueira) que promovem fortes reflexões no leitor. Sua habitual ironia também marca presença logo no 1º capítulo, quando o paciente (cego) pergunta ao médico: “(...) e deverei seguir algum tratamento, tomar algum remédio, Por enquanto não lhe receitarei nada, seria estar a receitar às cegas. Aí está uma expressão apropriada, observou o cego”. (1995: p.24).


Também merece destaque a visão "saramaguiana" da mulher como um ponto de equilíbrio, sensibilidade e sabedoria. Não só aqui, mas em toda a sua obra, Saramago transforma a mulher em uma espécie de condutor que usa a intuição para guiá-lo à verdade. A excessiva visão, bem como a sensibilidade feminina auxiliam o autor no percurso da narrativa e o tornam onipresente e onisciente em sua obra. É como se graças às mulheres o mundo ainda não estivesse completamente perdido. A mulher enxerga aquilo que os outros não conseguem enxergar, assim como a mulher do médico é a única que não perde a visão, a única que, diante do caos, não perde o equilíbrio e a sensibilidade, pois em toda a história acompanha o marido no intuito de protegê-lo, de afagá-lo. Deve ser díficil ser a única que tem olhos numa terra de cegos!Também dentro do manicômio há a prostituta, que ampara maternalmente um garotinho estrábico que fora contaminado pelo "mal-branco" no consultório do médico. Esta visão sabiamente materna que Saramago tem da mulher está muito ligada à sua mãe, à sua avó e, sobretudo, à sua esposa, Pilar, uma mulher trinta anos mais jovem com quem vive há vinte e um anos e acredita que sem ela (sem sua doçura e sabedoria) não seria o homem que é hoje.


Mais uma vez impera a reflexão crítica do ponto de vista histórico-social na Literatura. Saramago, com sua Literatura socialmente interessada, não mede esforços para promover a reflexão de que precisamos abrir os olhos diante da cegueira inconsciente que nos possui. Compreender que nossa "visão" é cega "às claras" já é um primeiro passo para se chegar ao conhecimento da real necessidade de mudança humana, cada vez mais desencorajada em nosso mundo. Em recente entrevista ao Jornal da Globo, Saramago declarou que se pudesse voltar no tempo e reescrever sua história desde a sua infância, a escreveria exatamente como foi, sem mudar nada. Com toda a pobreza, a pouca comida, o sofrimento, os pais e avós analfabetos, tudo seria fielmente reproduzido; pois, para ele, foi este período doloroso e simples de sua vida que o fez enxergar as diferenças sociais, a pureza da simplicidade e ter essa visão crítica da realidade que hoje deposita de forma tão reveladora em suas obras. E assim como os cegos da caverna de Platão, os cegos de Saramago também reconhecem que chegar ao conhecimento é algo sempre muito doloroso.

Nota: O filme Blindness, baseado na obra Ensaio Sobre a Cegueira e dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, foi recentemente premiado em Cannes e deve chegar às telas brasileiras em setembro deste ano. Vale a pena conferir uma produção cujo roteiro é baseado em um texto de originalidade inigualável e dirigida por um brasileiro genial. Recomendo! Assista agora ao vídeo da reação de Saramago ao ver o filme, pela 1ª vez, ao lado do diretor Fernando Meirelles:

http://www.youtube.com/watch?v=Y1hzDzAvJOY

Um comentário:

Nikinho disse...

Diletíssima Amiga Marcinha Linda:
Nem precisava mencionar... mas vou: o Texto está, misticamente, maravilhoso.
Não esperava que fosse diferente vindo de você.
Dizer Parabéns é ser redundante e até chato. Prefiro dizer:
Tornei-me teu leitor costumaz.
Beijos